‘20% dos trabalhadores hoje estão lesionados’

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“Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim” (Autor desconhecido)

A frase acima está afixada em uma das estantes do consultório do dr. Márcio Moreira Salles (foto), médico do trabalho

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“Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”
(Autor desconhecido)

A frase acima está afixada em uma das estantes do consultório do dr. Márcio Moreira Salles (foto), médico do trabalho que em seus 22 anos de atuação em Brasília atendeu cerca de 20 mil pacientes vítimas de doenças ocupacionais, grande parte deles bancários.

Mesmo alarmado e indignado com o crescente número de trabalhadores lesionados — em sua opinião em razão principalmente do descaso das empresas, dos órgãos governamentais, dos médicos e da falta de consciência dos próprios trabalhadores —, Márcio Salles acredita ser possível reverter esse quadro de sofrimento. Basta que haja uma mudança no comportamento desses atores. É essa esperança que está embutida na frase acima.

Mas Márcio Salles tem pressa, porque a situação é cada vez mais assustadora. “Pelas estatísticas internacionais, podemos hoje avaliar que, por baixo, por baixo, 20% dos trabalhadores já estão lesionados dentro das empresas. É essa a realidade hoje nos bancos”, alerta o médico do trabalho, formado pela UnB.

Para ele, é esse o resultado das mudanças radicais por que passaram os trabalhadores do sistema financeiro nas duas últimas décadas e meia, período em que o número de bancários decresceu de cerca de um milhão para pouco mais de 400 mil. Apesar da introdução de novas tecnologias, a quantidade e o ritmo de trabalho aumentaram acentuadamente nos bancos, assim como a pressão por alcance de metas, o assédio moral e o estresse.

Esse conjunto de fatores é o principal responsável pelas doenças do trabalho. “E ninguém, absolutamente ninguém, está a salvo das lesões”, adverte Márcio Salles, combatendo os mitos de que os trabalhadores com idade mais avançada ou que estejam infelizes com o trabalho que executam estão mais propensos a contrair lesões.

“As LER/DORT atingem igualmente quem gosta do que faz e estão se acentuando entre aqueles que se encontram no auge da produção, na faixa etária entre 25 e 35 anos”, conta ele.

Sofrimento

O médico tem um rosário de casos para contar sobre o drama dos bancários lesionados. Um deles aconteceu com o chefe de expediente de uma agência do Bradesco de uma cidade satélite do DF. Verdadeiro algoz de seus funcionários, pelas cobranças excessivas e autoritarismo com que conduzia seu posto de chefia, o comissionado desdenhava de seus subalternos, chamando-os de lerdos e preguiçosos, quando alguém contraía doença do trabalho.

“O caso dele era muito conhecido porque eu atendia vários de seus funcionários. Até que um dia aparece ele no meu consultório, com um quadro lamentável de lesão”, lembra Márcio Salles.

O médico convive diariamente com o sofrimento dos lesionados, tanto físico quanto psíquico. “Como a doença é progressiva, e não apresenta marcas visíveis, é freqüente o trabalhador lesionado, por não ser capaz de desempenhar sua função com a mesma desenvoltura, ser motivo de chacota no trabalho, entre os amigos e vizinhos e até na própria família”, relata Márcio Salles. “Isso mói a pessoa. Ela vai engolindo, engolindo, até travar. É essa a realidade da grande maioria dos bancários lesionados.”

A prevenção é o melhor remédio

“Minha grande luta é pela prevenção das doenças do trabalho. A melhor solução é evitar que elas se instalem”, recomenda o médico Márcio Salles. Abaixo ele dá outras dicas e tira dúvidas sobre as LER/DORT.

Todas as atividades que envolvem esforço repetitivo são passíveis de lesões?
Sim, se não forem tomados os devidos cuidados: respeito ao ritmo, ao descanso muscular, à fadiga, à postura.

As LER/DORT têm cura?
Depende do estágio em que são diagnosticadas. Quanto mais precoce o diagnóstico, são grandes as chances de recuperação total. Quanto mais tardio, menores as possibilidades de recuperação.

Como diagnosticar as lesões?
O diagnóstico é eminentemente clínico, envolvendo as queixas do paciente, avaliação de seu ambiente e organização do trabalho e exame físico minucioso.

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