BCs admitem risco de bolha em emergentes

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Em reunião, na Suíça, presidentes de bancos centrais advertem para excesso de otimismo nos mercados

Folha de S. Paulo – Andrei Netto

Os presidentes de bancos centrais do G-20 e representantes de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estão preocupados com o risco de bolhas em países emergentes e com o excessivo otimismo nos mercados financeiros. As advertências foram levantadas em reunião do Fórum de Estabilidade Financeira (FSB), no sábado, na Basileia, e voltaram a ser abordadas ontem pelas autoridades monetárias em encontro no Banco de Compensações Internacionais (BIS).
 
Para o presidente do Banco Central da Itália e do FSB, Mario Draghi, o abundante fluxo de capital em direção a economias emergentes e a valorização de seus ativos "poderia criar bolhas especulativas".

A ameaça se deve em grande parte ao otimismo excessivo do mercado, que consideraria a melhora da situação econômica internacional mais consistente do que ela de fato seria. "A situação é muito melhor do que um ano atrás", afirmou. "Mas ainda existem muitas fragilidades substanciais que reinam no sistema, apesar do crescimento estimulado pelos vastos pacotes monetários e fiscais."

À noite, o presidente do banco central de um país emergente reiterou: "A preocupação não é apenas com bolhas nos emergentes, mas de modo geral, por causa da política monetária americana de juros muito baixos e de alta liquidez", afirmou. "As possíveis bolhas não estão sendo geradas em outros países, mas na alta liquidez do dólar." Segundo a fonte, parte da preocupação diz respeito ao timing com que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) fará o aperto de sua política monetária. "Em certo momento, eles terão de reverter a política. Se atrasar, eles geram uma bolha pesada, potencialmente pior do que ocorreu. Se for muito rápido, pode-se ter uma recessão em W."

Com base nesse temor, as autoridades monetárias dizem estar convencidas da necessidade de uma ação anticíclica, que evite "punir a economia real". Essa estratégia seria necessária, prevê Draghi, porque "as necessidades de refinanciamento das instituições financeiras e das empresas serão impressionantes nos próximos dois ou três anos". "Os próprios governos terão necessidades de financiamento consideráveis."

A reunião do FSB e as discussões no BIS giram em torno da tomada de risco excessivo no setor financeiro, mas têm como objetivo central definir propostas de reforma da regulação do sistema financeiro, em especial relacionadas ao reforço do nível e da qualidade dos capitais dos bancos. Os estudos resultarão num conjunto de "propostas preliminares" que será entregue aos chefes de Estado e de governo de países-membros do G-20 até junho.

Ontem, as reuniões tiveram a participação de executivos de alguns dos grandes bancos. Larry Fink, do Black Rock; Vikram Pandit, Citigroup; e John Stumpf, do Wells Fargo, eram esperados. Do Brasil, Roberto Setubal, presidente do Itaú Unibanco, participou dos debates, sem falar com a à imprensa. As discussões sobre regulação, afirma o banqueiro, não foram bem recebidas. "Os bancos manifestam preocupação com as medidas, porque são restritivas."