Burcas Invisíveis – artigo da deputada federal Erika Kokay

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Erika Kokay é deputada federal (PT/DF) e vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara

 

Este março de 2012 entra para a história das brasileiras carregado de simbolismo pela entrega do diploma Bertha Lutz, no âmbito das comemorações do Dia Internacional da Mulher, à presidente Dilma Rousseff, homenageada, ao lado de quatro grandes brasileiras, em sessão solene do Senado.

 

No evento, foi lembrada a conquista histórica, há apenas 80 anos, do direito a voto das mulheres no Brasil, uma das bandeiras empunhadas pela zoóloga Bertha Lutz, pioneira na luta pelos direitos políticos das brasileiras. A conquista do voto, como todas as conquistas das mulheres, foi tecida com muita coragem, tenacidade, sacrifícios e dores.

 

Por isso, costumo dizer que a felicidade da mulher é guerreira e considero que a grande revolução ocorrida em meados do século 20 foi a das mulheres. Uma revolução fundamental para o resgate de uma série de direitos não só das mulheres, mas de outros segmentos da humanidade vitimados pela violação da dignidade humana. Afinal, quando as mulheres se colocam em movimento, elas movem toda a sociedade e realçam a possibilidade do reconhecimento humano.

 

Mas não queremos apenas votar. Não queremos uma democracia pela metade. Nós queremos que o parlamento e todos os espaços de poder tenham uma participação efetiva das mulheres. Queremos desconstruir todas as burcas invisíveis que ainda fazem com que a representação das mulheres em todas as esferas do Poder Legislativo no Brasil seja, em média, somente de 9% — percentagem menor que nos países árabes, onde mulheres ainda usam burcas, e que nos coloca em antepenúltimo lugar entre os países das Américas em participação feminina nos parlamentos.

 

Pelo Censo 2010, 51% do povo brasileiro são mulheres e 49%, homens, proporcionalidade que não se reflete nos legislativos nem nos executivos do Brasil, ainda que tenhamos na Presidência a primeira mulher — mulher de coragem, que enfrentou as salas escuras da ditadura em nome dos valores democráticos e que hoje é reconhecida como uma das pessoas mais influentes do mundo.

 

Como a presidente Dilma, também tenho a convicção de que este século 21 é das mulheres. E neste século o nosso grande desafio é reconhecer o outro enquanto ser humano — diferente na forma de ser, mas absolutamente igual em direitos. Por isso, considero essencial que a questão de gênero esteja presente na reforma política. Será um arremedo de reforma política se os parlamentares fecharem os olhos para a subrepresentação das mulheres no parlamento.

 

É inadmissível tanta desigualdade, que se manifesta não apenas na subrepresentação política, mas também nos locais de trabalho, nas esferas sociais e até mesmo dentro da própria casa, no espaço onde somos nós mesmos. É inadmissível a violência doméstica, cujas marcas ficam não apenas na pele, mas também na alma das mulheres, vítimas de uma lógica de dominação em que aqueles que se sentiam donos das terras se sentem donos das crianças, donos das mulheres. É a lógica das capitanias hereditárias, hoje pós-modernas, que despersonaliza a mulher, a coisifica e a transforma em espelho dos desejos do homem.

 

Não podemos dizer que vivemos uma democracia plena enquanto tantas mulheres tombam ainda sob as armas do machismo e do sexismo. A cada 15 segundos, uma mulher sofre alguma agressão física no Brasil. A persistência dessa violência constitui um pesado retrocesso civilizacional e é uma forma cruel de controle sobre o nosso poder e a nossa sexualidade. É a negação do outro enquanto semelhante.

 

Por isso nos cabe, a cada um e a cada uma de nós, cidadãos e cidadãs deste país, desconstruir a discriminação de todos os setores minorizados por essa lógica perversa de dominação, sexista, machista, desrespeitosa, causadora de relações sociais degeneradas.

 

Neste século, nós, mulheres, queremos, sim, o poder. Não o poder contra os homens, mas o de sermos nós mesmas, o de exercermos plenamente a condição humana que nos foi castrada. Nós queremos ter o poder da caneta, o poder do microfone, mas queremos continuar usando o batom. E vamos demonstrar não apenas a coragem da mulher brasileira, mas também a sua capacidade, responsabilidade e amor à coisa pública.

Outros marços virão e com eles continuaremos a abrir e ocupar todos os espaços naturais da mágica condição humana. Então, poderemos dizer que vivemos numa sociedade realmente democrática, em que cabe todo mundo e onde ninguém se sente excluído.

 

Fonte: Correio Braziliense