Desigualdade para todos

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O Fundo Monetário Internacional (FMI) mantém a nefasta prática de nos dar lições e recados. O último, na linha de que a economia americana está “livre de freios” para crescer, de que as da zona do euro estão “sólidas” e “em boa forma” e de que o Brasil precisa “botar ordem” na casa. Curioso, porém, é que ainda se dê tanta atenção a essas análises: quem tem mais de 40 anos e boa memória sabe como o FMI “orientou” bem alguns governos, a ponto de quebrar nações. Curioso é, também, saber como continuamos reféns das tais agências de classificação de risco e suas interessantes, interessadas e interesseiras notas AA, BB+ ou ZZ.

Curioso, enfim, é constatar como estão sumindo as avaliações e estudos sobre, por exemplo, o investimento produtivo — só para usar expressão do meio. Afinal, o que queremos: aumentar a produção e o emprego ou endeusar o tal investimento financeiro, que dá lucros sem gerar nenhum dos dois? Por que o FMI não debate a desigualdade social, cada vez mais evidente na Europa e nos EUA? Nesse último, os dados são assustadores — mas parecem não assustarem ninguém por aqui (preferimos ficar discutindo Lepo Lepo e popozudas).

Robert Reich, espécie de ministro de Bill Clinton para a área do trabalho, lançou recentemente o documentário Inequality for all (Desigualdade para todos). Ele mostra que o salário médio anual do norte-americano era de US$ 48 mil em 1978; hoje, levando-se em conta o poder de compra, é equivalente a US$ 34 mil. Reich também lembra: a renda familiar média dos mais ricos pulou de US$ 393 mil em 1987 para US$ 1,1 milhão agora. Tentando resumir como está terrível a situação no país “livre de freios” para crescer, ele mostra: em cinco anos, 1% da população norte-americana ficou com 90% do crescimento do PIB; os outros 99% da população dividiram os 10%. Para cravar de vez na nossa memória a estupidez, Reich insiste: 450 sujeitos movimentam, sozinhos, o mesmo que 150 milhões de norte-americanos.

Na era da informação plena, está na hora de o Brasil (políticos, economistas e jornalistas, principalmente) deixar de lado a burra perspectiva de que instituições de elite (como o FMI) ou nações de elites (como os EUA) podem nos ditar regras. Beijinho no ombro!

Fonte: Correio Braziliense