Dimensões sociopsíquicas do adoecimento por Ler/Dorts: a abordagem da psicodinâmica do trabalho

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Por Ana Magnólia Mendes

As características da acumulação flexível do capital e da pós-modernidade têm comprometido enormemente a centralidade do trabalho e, por conseqüência, aumentado sensivelmente as ocorrências e diversificação do número de patologias, merecedoras de especial atenção, como as Ler/Dorts. 

Parte-se da análise da organização do trabalho para entender como é produzido o adoecimento. São centrais, para essa análise, as estratégias de ação utilizadas pelos trabalhadores visando confrontar a organização do trabalho, responsável pelo modo como essas estratégias são construídas e desenvolvidas, á medida em que oferece ou não espaços para fala do sofrimento, para o reconhecimento e cooperação, favorecendo a saúde e/ou o surgimento de doenças como as Ler/Dorts.

O sofrimento antecede o acometimento por Ler/Dorts e é mobilizado pelos modos de organização do trabalho, principalmente no que se refere à auto-aceleração para execução das tarefas. A auto-aceleração dos movimentos, inicialmente, é utilizada pelos trabalhadores como uma estratégia de defesa para dar conta de executar as tarefas repetitivas, monótonas, sem sentido, sob pressão de tempo, levando o trabalhador ao entorpecimento do pensamento e dos sentimentos. Somado a essa auto-aceleração estão às pressões por produtividade e qualidade, a falta de autonomia, o relacionamento com colegas, chefes e clientes, as exigências de qualificação e competição e o aumento da cadência decorrente do medo das constantes ameaças de demissão.

A auto-aceleração reduz a capacidade de negociação e resistência dos trabalhadores. É responsável por manter a produção, mesmo que em prejuízo da saúde, sendo o fracasso dessa defesa a razão para a doença se instalar. Além disso, é uma estratégia valorizada pelos pares, chefias e clientes em razão de aumentar a produtividade pelo ritmo que impõe ao cumprimento das tarefas. Tal valorização inviabiliza o reconhecimento no trabalho, implicando na manutenção dos padrões que geram o adoecimento.

O reconhecimento — que falta e é buscado— só acontece quando ocorre a admissão do próprio sofrimento e não a sua negação. A existência desse reconhecimento implica, por seu turno, a retribuição moral e simbólica às contribuições do trabalhador, à eficácia da produção e ao seu investimento físico, cognitivo e afetivo na organização do trabalho. Nessa perspectiva, a defesa contra o sofrimento negado — auto-aceleração — ocupa o gap ocasionado pela falta de reconhecimento, gerando assim a hipersolicitação osteomuscular.

Com isso, instala-se o adoecimento por Ler/Dorts e outro modo de sofrimento emerge agora, em função das limitações, da dor, e principalmente, pela necessidade de afastamento do trabalho. Para o adoecido é muito difícil enfrentar esse sofrimento e reestruturar sua vida. A doença o coloca em situação de vulnerabilidade. Ocorre um comprometimento das dimensões sociopsíquicas do traba-lhador, dificultando seu reengajamento ao trabalho, à família e à sociedade. Nesse momento, os sentimentos são de tristeza, amargura, sensação de vazio, abandono, desamparo, solidão, mau-humor, irritação e dúvida sobre sua capacidade laborativa.

As relações sociais e familiares começam a ser seriamente afetadas. O adoecido passa a ter insensibilidade com o outro, conflitos nessas relações, comportamentos de agressividade, dificuldades com os amigos e impaciência com as pessoas em geral.

Ainda, precisa lutar para que a empresa, colegas de trabalho e profissionais de saúde reconheçam sua doença. As prescrições e orientações dos profissionais são muitas vezes ineficazes. Os adoecidos, na maior parte das vezes, vivenciam desamparo, desorientação e até se questionam se não estão loucos, já que o profissional com poder e conhecimento legitimado pela sociedade desconhece ou não reconhece o adoecer. É uma relação permeada pelo medo, desconfiança, confusão e insegurança. Nesse sentido, as Ler/Dorts exigem uma revisão da prática médica que se baseia prioritariamente em exames clínicos, em detrimento da fala do paciente.

Vivenciando todo esse sofrimento, não encontrando modos de enfrentá-lo e com a auto-imagem e as relações sociais deterioradas, instala-se paulatinamente a depressão. Quando isso ocorre, o trabalhador passa a ter intensa dificuldade em encontrar prazer na vida ou em qualquer atividade rea-lizada; medo de agudização do quadro clínico, da inutilidade, podendo tornar-se inativo, inválido, com profunda vivência de inadequação e menor valia social, além de falta de perspectivas futuras. Teme-se, inclusive, que tal situação possa levar ao suicídio.

Essa depressão é conseqüência das inúmeras restrições que a doença impõe em relação às tarefas do cotidiano. O lesionado é desapropriado do seu estilo de vida, de sua maneira de ser e fazer as coisas. Passa a ter de reaprender as tarefas mais elementares de sua vida e viver com e em função da doença.
Em síntese, o afastamento por Ler/Dorts representa uma ruptura dramática no projeto de vida do trabalhador. A perda da capacidade de trabalhar bloqueia as possibilidades do trabalho ocupar lugar de identidade, estruturação psíquica e social. O adoecido tem medo da morte social. Ele precisa buscar estratégias para transformar essa realidade e resgatar o sentido do trabalho, devendo contar para tal com uma larga e sólida rede de apoio social.

Nesse sentido, propostas precisam ser construídas para dar suporte para que esses trabalhadores reorganizem suas vidas dentro dessa nova e cruel realidade. Para tal, é necessária uma atenção especial do Estado, dos gestores das empresas, dos profissionais das áreas de saúde e de RH, dos sindicados e dos envolvidos no processo de reabilitação. Não esquecendo que a prevenção ainda é o caminho mais a-propriado para evitar e/ou ressignificar o sofrimento e transformar a organização do trabalho patogênica.

Ana Magnólia Mendes é professora do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília (UnB)