‘É preciso acabar com a hegemonia dos filmes estrangeiros’

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A relação entre cinema e identidade nacional foi o tema da quarta edição do Brasília Debate, realizada pelo Sindicato

no último dia 6, que contou com a presença do ator e diretor Paulo Betti, do secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, Alfredo Manevy, e do produtor cinematográfico brasiliense e ex-presidente da Associação Brasileira de Documentaristas (Seção DF), Marcio Curi. 


O produtor cinematográfico Marcio Curi; o presidente do Sindicato, Jacy Afonso; o ator Paulo Betti; e o secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, Alfredo Manevy 

Inspirado em um personagem real saído das senzalas do século XIX, Cafundó, filme dirigido por Paulo Betti e Clóvis Bueno, mostra a vida de um tropeiro, ex-escravo, deslumbrado com o mundo em transformação e desesperado para viver nele. Deslumbramento transformado em choque, que o leva ao fundo do poço. Derrotado, ele se abandona nos braços da inspiração, alucina-se, ilumina-se. Uma visão em que se mesclam a magia de suas raízes negras com a glória da civilização judaico-cristã.

Ingredientes como os retratados no filme Cafundó – que mistura crenças, história da cultura negra e elementos da nossa formação predominantemente cristã – lhe parecem familiar? Não é para menos. Estes são elementos formadores da nossa identidade enquanto nação e que o cinema brasileiro vem resgatando em suas produções. Com maestria, registre-se.

A relação entre cinema e identidade nacional foi o tema da quarta edição do Brasília Debate, realizada pelo Sindicato no último dia 6, que contou com a presença do ator e diretor Paulo Betti, do secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, Alfredo Manevy, e do produtor cinematográfico brasiliense e ex-presidente da Associação Brasileira de Documentaristas (Seção DF), Marcio Curi. 

Eles traçaram um panorama geral da produção nacional, o papel desempenhado por ela na promoção da cultura e na formação da identidade do povo brasileiro, apontaram os sucessos e as falhas nas iniciativas do governo voltadas para o setor e defenderam o fim da hegemonia de filmes estrangeiros.

“Comparo o cinema brasileiro ao álbum de fotografias que a minha mãe, dona Adelaide, costumava mostrar à família. O álbum de família contando a nossa história era o cinema brasileiro da época, a identidade dela. A defesa do cinema brasileiro é a defesa do álbum de família”, comparou o ator e diretor Paulo Betti, numa sustentação esfuziante da produção nacional que, para ele, supera em muito a qualidade do cinema norte-americano.

“Qualquer filme brasileiro é melhor que o estrangeiro. Assisti ao Homem-Aranha 3, por exemplo, e achei uma babaquice. É preciso acabar com a dominação de filmes estrangeiros num cenário de belas produções brasileiras”, frisou Betti. Para ele, os espectadores precisam adotar uma postura diferente e assistir com mais freqüência aos filmes produzidos no Brasil.

“Do ponto de vista cultural, o Brasil é colonizado pelos norte-americanos”, resumiu Betti, criticando a falta de investimentos públicos e privados para o setor, o que, afirmou, contribui em grande parte para essa postura submissa do cinema brasileiro em relação a produções internacionais.

Estado como promotor da cultura
 
Para o secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, Alfredo Manevy, o cinema funciona como um dos responsáveis, no plano cultural, pela formação, através da imagem, do imaginário de “estar no mundo” dos espectadores – além de formador de sua auto-estima. “O cinema nos forma como povo. Esse é o papel do Estado, ao reconhecê-lo como patrimônio cultural”, constata.

Segundo ele, o governo vem promovendo uma série de políticas públicas no sentido de garantir o acesso da população de baixa renda às produções cinematográficas, disponibilizando infra-estrutura para viabilizar a chegada de salas de projeção a todo o país. “Difundir a cultura é dos pontos centrais da política de desenvolvimento do país”, afirmou Alfredo. “O acesso aos bens culturais é fundamental para o desenvolvimento do conceito de cidadania. E os bens culturais quem produz é a sociedade e cabe o Estado produzir instrumentos para que todos tenham contato com essa produção”.

Já Marcio Curi, ex-presidente da Associação Brasileira de Documentaristas (Seção DF) e produtor cinematográfico brasiliense, a exemplo de Paulo Betti, teceu severas críticas ao processo de dominação norte-americana sobre o cinema nacional, o que segundo ele, priva a população de assistir a outros filmes estrangeiros de boa qualidade.

Curi criticou também o processo de formação das TVs em rede, amparado pela União, que elimina, de acordo com ele, as diferenças regionais de produção, descaracterizando-a, e elevou o tom ao condenar setores do governo que vêem no investimento no cinema malversação do dinheiro público. “Há muito a ser feito para preservar o cinema brasileiro”, lembrou.