Única mulher do Partido dos Trabalhadores (PT) a se eleger deputada distrital, Erika Kokay parte para o segundo mandato com a mesma postura combativa pela qual ficou conhecida.
Única mulher do Partido dos Trabalhadores (PT) a se eleger deputada distrital, Erika Kokay parte para o segundo mandato com a mesma postura combativa pela qual ficou conhecida. Adepta de um estilo que inclui batom e maquiagem, a parlamentar também não deixa de levantar a voz no plenário quando acha necessário. Porque as mulheres de hoje querem a caneta, querem o microfone, mas também querem o batom. Nós queremos viver a plenitude da condição feminina, defende.
O discurso firme já lhe rendeu desafetos políticos, como conta nesta entrevista. Conversa que teve como elemento central o papel da mulher na Câmara Legislativa. Érika falou da necessidade de se implementar políticas públicas com um recorte de gênero e defendeu a fiscalização do orçamento local destinado as mulheres.
Ela também cobra do GDF a assinatura do Plano Nacional de Defesa dos Direitos da Mulher, encostado há um ano. Confira a seguir os principais pontos do bate-papo com a presidente da Comissão em Defesa dos Direitos Humanos, Cidadania, Ética e Decoro Parlamentar da Câmara. Posto que comanda pelo quarto ano.
CorreioWeb Como a senhora analisa a participação da mulher na política?
Erika Kokay Vivemos numa sociedade patrimonialista, sexista, machista e isso se reflete também na participação política das mulheres. Às mulheres foi concebido por muito tempo apenas o espaço doméstico. Então, quando elas entravam na vida pública, era um conquista. Eu diria que o maior movimento depois dos direitos humanos, na segunda metade do século vinte, foi o movimento feminista. Não tem nenhuma possibilidade de você fazer um processo de libertação, de construção de uma sociedade igualitária, mantendo um nível de discriminação e preconceito contra as mulheres, que sofrem várias discriminações. Algumas a gente consegue medir. Você consegue medir que as mulheres estão mais fora do mercado de trabalho. Embora tenham escolaridade maior, são as que recebem menores salários. Você consegue medir que, a cada 5 segundos neste país, uma mulher é vítima de violência sexual ou física. E essa discriminação você mede por números que são realmente dolorosos para construção cidadã. Mas tem discriminação que a mulher enfrenta que você não consegue medir, só conseguimos sentir. A discriminação da ditadura da perfeição. Quando a mulher adentra funções ocupadas por homens, ela não pode errar. Se erra, erra porque é mulher.
CW Você já sofreu discriminação na Câmara Legislativa?
Erika Isso existe no parlamento, existe em todos os espaços. E existe uma desqualificação de posições da mulher. Já fui agredida por um parlamentar, pelo João de Deus. Ele me agrediu fisicamente em função de uma polêmica sobre o caso do deputado Xavier (cassado). Já fui ofendida pelo presidente da Casa, na época deputado Fábio Barcellos, que disse vossa excelência que é defensora dos batons, porque na época fazíamos uma luta para que as mulheres presas pudessem usar batons. E muitas vezes, ao assumir a liderança do PT, ao ter a firmeza em determinadas posições, isso era caracterizado como acordou de pá virada. Uma intransigência. E quando nós lutamos para apurar o processo de um deputado acusado de exploração sexual, nos corredores da Casa, eles diziam que eu era mal amada. Como se buscar a Justiça para mulher significasse a sisudez na vida.
CW O que a Câmara pode fazer pela mulher?
Erika Creio que nós temos duas funções fundamentais. Uma delas é dar consciência às próprias mulheres. Eu acho que o Paulo Freire tem razão em dizer que, muitas vezes, nós internalizamos os nossos algozes. E a mulher tem que ter consciência dos direitos que tem. Então, é trabalhar na perspectiva da conscientização, da realização de audiências, da realização de jornadas de discussão. Elaborar uma perspectiva de ter um orçamento condizente com a necessidade de superar essa discriminação. O orçamento do DF é parco no que diz respeito às mulheres. A segunda é políticas públicas com recorte de gênero. Discutir saúde específica para mulher, espaços de fala para mulher. São políticas transversais. Em todas as políticas, tem que ter o recorte de gênero. Cabe a Câmara cobrar e assegurar que o orçamento possibilite a efetivação dessas políticas.
CW Por que a participação da mulher como deputada distrital caiu nesta legislatura?
Erika Eu diria que é um pouco conseqüência da falta de construção. É mais difícil do que para o homem a mulher assumir uma intervenção política. Primeiro porque ela tem a dupla jornada, a tripla jornada. Fruto de uma situação cultural, falta de conscientização das mulheres. Também creio que não basta ser mulher. Tem muitas mulheres que são eleitas pelo sobrenome. Elas vêm na esteira da autoridade de homem e não têm uma vida própria. O cara é senador e a mulher sai deputada federal. Isso acontece muito. Não basta ser mulher, é preciso agir na política como mulher. Aqui em Brasília tem mais mulheres do que na média nacional. No mínimo, você deveria ter uma representação condizente ao número de mulheres na sociedade. Cresceu a bancada federal, mas no DF diminuiu.
CW Qual mensagem a senhora deixa para as mulheres neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher?
Erika As mulheres têm que carregar um prazer imenso de ser mulher. Um prazer imenso de ser mulher para superar toda a dor da discriminação. É preciso conhecer a delícia de ser mulher para superar essa dor. E dizer para as mulheres que nada justifica uma relação em que ela se sinta diminuída, agredida de alguma forma, desqualificada enquanto pessoa. É preciso que nós possamos trabalhar com o avanço que temos. A lei Maria da Penha é um desses avanços, mas ela por si só não assegura o direito. Depende das mulheres que a lei Maria da Penha possa ser efetivada.
Correioweb


























































































































































