
Quando o mais novo planejador econômico do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, Neel Kashkari, soltou a bomba na semana passada, pedindo o desmembramento dos grandes bancos, deparou-se com a previsível reação indignada dos lobistas dessas instituições.
Um deles descreveu seus comentários como “cegos”. Mas embora ninguém nas salas dos altos executivos dos grandes bancos queira que as autoridades os forcem a desmembrar ou encolher seus bancos, muitos desses banqueiros admitem que suas instituições poderiam se sair melhor se fossem menores ou mais simples. Eles apenas temem que qualquer grande reestruturação possa dar errado por causa da maneira como as regulamentações implementadas após a crise financeira estão sendo aplicadas.
Em entrevistas à “Reuters”, seis banqueiros graduados disseram estar lutando com os custos e restrições que enfrentam como resultado das novas regras, assim como com a fraqueza da economia mundial e as turbulências nos mercados financeiros. Os banqueiros, que estão ou até recentemente estavam em posições que vão de chefe de divisão de negócios a CEO, falaram sob a condição de permanecerem no anonimato, para que pudessem ser sinceros sem irritar autoridades reguladoras ou investidores. “Fundamentalmente, o negócio precisa mudar”, disse um banqueiro veterano que até recentemente participava da comissão executiva de um grande banco europeu. O retorno dos acionistas dos grandes bancos está “baixo demais”, afirmou ele.
Esses problemas não são novos, mas adquiriram outra relevância num momento em que o Deutsche Bank é questionado sobre sua adequação de capital, o Barclays enfrenta pressões para se desmembrar e os executivos-chefes dos grandes bancos americanos lutam contra a perda da confiança dos investidores em suas ações. Equipes administrativas dos EUA e Europa estão agora cogitando mudanças dramáticas no modelo de negócios, mas nenhuma das opções é particularmente atraente, afirmam os banqueiros.
Fundir para cortar custos e melhorar as margens está fora de questão, dados os problemas que os bancos provavelmente teriam com as autoridades reguladoras, que não querem que instituições “grandes demais para quebrar” fiquem ainda maiores. A cisão é complicada pelas exigências de capital, que tornariam as operações de negociações de títulos separadas economicamente inviáveis – e pelo fato de que há poucos compradores para os ativos que os bancos querem menos, se é que há compradores.
Alguns grandes banqueiros afirmam estar com poucas escolhas, a não ser seguir em frente no que eles temem que será um período longo e sombrio de lucros fracos, acionistas furiosos e encolhimento gradual.
O problema está tão complicado que o executivo-chefe do Deutsche Bank John Cryan recentemente disse em uma conferência telefônica, que preferiria hoje ser o CEO de um banco mais simples e voltado para o varejo, como o Wells Fargo, que possui apenas uma modesta divisão de banco de investimentos. “Infelizmente”, disse ele, “há muitas coisas que eu gostaria que acontecessem mas não se tornarão realidade”. Os comentários de Kashkari, em seu primeiro pronunciamento como presidente do Fed de Minneapolis, foram surpreendentes porque ele já trabalhou no Goldman Sachs, é Republicano e ocupou um alto cargo no Tesouro durante a crise financeira, na administração de George W. Bush.
Em uma entrevista à “Reuters” na quarta-feira, Kashkari criticou a chamada regra do “testamento em vida” da Lei Dodd-Frank, que exige que os bancos demonstrem como poderão ser desmantelados de uma maneira ordeira se quebrarem, sem criar riscos para o sistema financeiro. Kashkari disse acreditar que a regra não funcionaria em um cenário de crise – que os bancos simplesmente teriam de ser socorridos novamente. “Desafio qualquer um que pensa que, num momento de estresse, faríamos esses bancos cumprir a regra”, disse ele. “Realmente não acho que isso vá acontecer”.
Uma maneira de forçar as grandes instituições financeiras a se desmembrarem, seria “ampliar agressivamente” seu capital ou exigências de alavancagem, disse Kashkari. Ele alertou, porém, que os bancos provavelmente lutariam com todas as forças contra essa proposta.
De fato, Tony Fratto, que trabalhou com Kashkari no Departamento do Tesouro e hoje é um lobista da Hamilton Place Strategies, disse que os comentários de seu ex-colega estão fora da realidade.
“Isso é como reabrir a porta do celeiro depois que o cavalo está na cocheira”, disse Fratto. “Quer você ame ou odeie a [lei] Dodd-Frank, estará sendo cego se disser que ela não melhorou significativamente a segurança e a solidez.”
Analistas e consultores afirmam que os bancos se encontram em uma posição não invejável porque as iniciativas que eles poderiam ter tomado no passado para melhorar a lucratividade, foram impedidas pela regulamentação. Como resultado, eles lutam sem sucesso há anos para levar a rentabilidade patrimonial para mais de um dígito.
“De certa maneira, os bancos se transformaram em empresas de serviços públicos ruins”, diz Fred Cannon, analista bancário da KBW. “Com as empresas de serviços públicos, você tem uma regulamentação rígida sobre o que pode fazer e o que pode cobrar, mas no final das contas, os investidores acabam tendo um retorno razoável. Com os bancos, esta última parte não aconteceu.”
Há muito os executivos de bancos afirmam que os retornos fracos são uma questão “cíclica” que deveria desaparecer quando os mercados começarem a florescer novamente. Mas com o setor se aproximando do oitavo aniversário do começo da crise, aumentam as dúvidas sobre a natureza dos problemas com os lucros. Seriam eles seculares, em vez de cíclicos? E os grandes banqueiros imaginam agora como poderão aumentar as receitas sob um conjunto global crescente de regulamentações financeiras que limitam o que eles fazem e, às vezes, os colocam em conflito uns com os outros. Um exemplo comum apontado é como as novas regas de capital podem penalizar os bancos por serem grandes, mas também os desencorajam a ser menores.
Por exemplo, devido ao tamanho, os oito maiores bancos dos EUA precisam ter coletivamente um capital extra de US$ 200 bilhões, que pesa sobre o retorno dos acionistas. Incluído na exigência de capital está um montante fixo que cada banco precisa manter para representar o “risco operacional”.
O Fed não explica exatamente como chegou a esse número, mas ele não existe apenas em função do tamanho: o Bank of America precisa manter 25% mais capital para risco operacional que o J.P. Morgan Chase, o maior banco americano.
O Bank of America já disse que está adotando medidas para responder às preocupações do Fed, reduzindo certas atividades produtoras de receita que criaram risco operacional. Mesmo assim, o banco diz que até agora não conseguiu convencer o Fed a reduzir essa exigência de capital. Como resultado, o retorno para seus acionistas sofre, porque a receita está caindo mais rapidamente que os custos financeiros.
“Todos os bancos estão tentando descobrir, com as maiores exigências de capital e as pressões sobre os lucros, como poderão criar retornos aceitáveis para seus acionistas”, diz John Weisel, um executivo da Ernst & Young que aconselha bancos globais sobre estratégias de negócios.
Ele diz que após anos cortando os custos, os CEOs estão se perguntando: “Fizemos tudo o que pudemos. O que vai acontecer em seguida?”.
Os bancos europeus estão atrás dos concorrentes americanos na questão do ambiente mais regulamentado e, em alguns casos, estão em busca de respostas. Na semana retrasada, as ações do Deutsche Bank atingiram seu menor patamar histórico, com o mercado temendo que ele não consiga recomprar alguns bônus que podem ser convertidos em ações. A ação do Deutsche reagiu um pouco depois que ele delineou um plano para recomprar US$ 5,38 bilhões em outros bônus, mas os temores dos investidores não parecem ter sido totalmente afastados.
Enquanto isso, o Barclays vem sendo pressionado depois que um analista da Bernstein escreveu uma carta aberta em 5 de fevereiro implorando ao CEO Jes Staley que faça uma cisão do banco. Rob McDonough, que aconselha instituições financeiras sobre gerenciamento de riscos no Angel Oak Consulting Group, diz que os megabancos poderão ter escolha a não ser encolherem significativamente. “Para um banco, é muito caro ser grande.” (Tradução de Mario Zamarian)
Fonte: Valor Econômico


























































































































































