Greve maiúscula, vitoriosa

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A Campanha Nacional 2008 dos bancários é histórica. Por múltiplas razões. Mas há uma que se sobressai entre todas: a capacidade de organização e a força da mobilização da categoria de norte a sul do país, em um consistente combate ao inquestionável poderio dos bancos, durante semanas.

O sistema financeiro foi inteiramente afetado por uma greve que se sustentou por 15 dias seguidos Brasil afora, 20 em Pernambuco, 21 em Sergipe e 23 em Brasília, Bahia, Maranhão e Rio Grande do Norte.

Os banqueiros sentiram o baque. Tiveram que curvar a espinha e se desfazer da postura de poderosos intocáveis.  Ficaram sem saída, porque não conseguiram fazer com que suas artimanhas surtissem efeito. O poder da grana, que costuma mover mundos e fundos e destruir coisas belas, desta vez viu-se encolhido frente ao tamanho da luta desencadeada nacionalmente pelos bancários.

O termo banqueiros aqui utilizado, para todos os efeitos, inclui também as direções dos bancos públicos. Até porque as atitudes que tiveram nas mesas de negociação em nada deixaram a desejar aos patrões de bancos privados. Aliás, foram muito piores em ameaças, chantagens e retaliações, principalmente no tratamento da questão dos dias parados.

Os famigerados interditos proibitórios surgiram de todos os lados. As orquestrações para instauração de dissídios coletivos, idem. Mas não houve tentativa de golpe que vingasse. As coisas tiveram mesmo que ser resolvidas na mesa de negociação, com compostura, como manda o figurino.

Os banqueiros se renderam aos fatos. Sentaram e chegaram a um termo aceitável. Ofereceram aumento real mais palatável, variando de 1% a 2,85%. Melhoraram a PLR, inclusive fora da regra do ano passado, da qual não queriam abrir mão de forma alguma. Foi uma proposta de bom tamanho para as circunstâncias do conflito. E bastante razoável também para o momento em que foi colocada, de agravamento desta crise que está atormentando o mundo, com o sistema financeiro no olho do furacão.

Mas faltava ainda um abacaxi a ser descascado: os dias não-trabalhados. Desconto, com a categoria firme na greve, nem pensar. Os patrões ainda tentaram impor o desconto dos dias parados antes de 8 de outubro, data do início da greve nacional. Os bancários de Brasília ficariam com esse ônus.

Também nesse embate, voltou a falar mais alto o silêncio das mais de cinco mil agências bancárias fechadas em todo o país – com bancários fazendo barulho nos piquetes, do lado de fora. Os patrões que ainda rangiam os dentes foram “convencidos” a desistirem de qualquer desconto. Ficou acertada apenas a compensação. Mas com limite de prazo até 15 de dezembro deste ano. Depois dessa data, não se fala mais em dia parado.

Nas negociações específicas, restaram pendências, mas avanços também se deram. Na Caixa, destaca-se a garantia de implantação de novo plano de cargos e comissões, com calendário pré-estabelecido. No Banco do Brasil, os itens relativos a isonomia e a implantação do plano odontológico da Cassi. O BRB tentou de última hora esquivar-se de algumas reivindicações dos funcionários, mas foi sacudido por mais um dia de greve e aceitou pagar abono de R$ 1.000 e 13ª cesta-alimentação pelo valor da Fenaban.

Com tudo na balança, tem-se por resultante uma greve de peso, maiúscula, com vitória inquestionável dos trabalhadores bancários sobre o descaso, a intransigência e a exploração patronal.

Os bancários de Brasília produziram capítulo à parte na história desta jornada de luta que se inclui entre as maiores greves já realizadas pela categoria bancária. Fica registrada a marcante participação dos delegados sindicais na organização e sustentação do movimento, juntos com o Sindicato, assim como a presença expressiva de bancários e bancárias de todos os bancos nos piquetes e nos arrastões para o fechamento de agências por todo o Distrito Federal. Igualmente digna de destaque foi a disposição de luta demonstrada por toda a categoria, do começo ao fim dos 23 dias de paralisação dos bancos.