Ibovespa sobe 100% desde a sua mínima

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Valor Online – Daniele Camba

Há exatamente um ano, o mercado acordava envolvido até a cabeça na maior crise financeira dos últimos 80 anos. Na fatídica segunda-feira, 15 de setembro de 2008, o banco Lehman Brothers simplesmente quebrou, algo que poucos acreditavam que o governo americano deixaria ocorrer. Um ano depois, o mercado brasileiro pelo menos parece completamente recuperado, com as feridas cicatrizadas. Ontem, o Índice Bovespa fechou aos 58.867 pontos, em alta de 0,86%. Essa pontuação já é 12,36% maior que o nível do índice em 12 de setembro do ano passado, aos 52.392 pontos, último pregão antes do início da crise. A pontuação de ontem também é a maior desde o dia 31 de julho de 2008, quando o Ibovespa encerrou aos 59.505 pontos. Desde a mínima, aos 29.435 pontos, em 27 de outubro de 2008, o índice acumula valorização de 100%, um percentual que simboliza bem como o cenário melhorou muito.

Se os ativos já voltaram aos níveis pré-crise, isso significa que as economias também se recuperaram totalmente? Não. Alguns países, como o Brasil, já saíram da recessão, mas outros ainda apresentam queda do Produto Interno Bruto (PIB), como os EUA. Além disso, até as economias que já voltaram a crescer não registram números vigorosos. Ou seja, o mercado pode ter motivos para subir, mas também existem argumentos para os investidores terem uma boa dose de cautela nesse processo de valorização acentuada.

Quanto mais a bolsa sobe, maior é o número de analistas ou até de investidores que crê numa realização de lucros o mais breve possível. No entanto, existe uma outra interpretação para essa pulga atrás da orelha das pessoas. Quanto menos posições os investidores possuem em bolsa, mais leve o mercado fica para alçar novas altas, lembra o sócio da Polo Capital, Marcos Duarte. "Esse raciocínio pode explicar o fato de as ações continuarem subindo, mesmo com toda essa percepção geral de que muitas delas já subiram bastante", diz Duarte.

Além da melhora do cenário internacional, o processo de queda da taxa de juros no Brasil tem contribuído para a continuidade da alta da bolsa. "Existe um fluxo de recursos migrando dos fundos de renda fixa para os multimercados ou para os fundos de ações", afirma o sócio da Polo Capital. Já o saldo líquido (diferença entre compras e vendas) de investidor estrangeiro na bolsa este mês, até dia 9, está negativo em R$ 229,8 milhões. Nos últimos dois meses, o saldo tinha sido positivo.

Chovendo no molhado

Na véspera do aniversário da crise, o mercado aguardava com certa ansiedade o discurso do presidente americano, Barack Obama. Além das frases de efeito, Obama apenas choveu no molhado. Ele falou tudo que já tinha dito há alguns meses, sem acrescentar grandes novidades em termos de iniciativas para evitar que os erros que culminaram na crise possam se repetir. De forma geral, Obama reafirmou a necessidade de uma maior fiscalização do setor financeiro. Nada que o mundo ainda não soubesse. Entre as medidas propostas pelo presidente americano está uma agência de proteção financeira para os consumidores, o que ele também já tinha dito.

Ontem, as ações de telefonia voltaram a ser destaque entre as altas. As preferenciais (PN, sem voto) da Brasil Telecom e da Brasil Telecom Participações subiram 3,46% e 3,32%, respectivamente. Já as ordinárias (ON, com voto) da Oi (ex-Telemar) se valorizaram 3,06% e as PN, 2,95%. Os analistas reforçam a tese de que a oferta de compra da GVT pela Vivendi deixou claro como os papéis de telefonia ficaram atrasados no atual processo de valorização da bolsa. As PNB da Aracruz subiram ontem 5,03% e as ON da VCP, 4,81%, as duas maiores altas do Ibovespa.