Ipea: Renda do pobre cresce mais que a do rico. E renda do pobre cresce como na China

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Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a partir de dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), mostra que 13,8 milhões de brasileiros subiram de faixa social entre 2001 e 2007.

O pesquisador e assessor da presidência do Ipea Ricardo Amorim disse em entrevista a Paulo Henrique Amorim nesta terça-feira, dia 23, que os dados da Pnad indicam que a renda do pobre brasileiro cresce como na China e mais rápido do que a do rico.

“Se nós olharmos o crescimento dessa faixa de renda no Brasil, nós vamos reparar que ela cresce muito mais rápido do que o restante da população em termos de renda. A renda deles cresce muito mais rápido. É o que todas as pesquisas estão constatando: é que a renda na base da pirâmide está tendo uma aceleração, está tendo um crescimento muito mais significativo do que no restante da pirâmide social”, disse Amorim.

Segundo o pesquisador Ricardo Amorim, a causa desse movimento é o crescimento econômico, as políticas de previdência e de transferência de renda, além do aumento real do salário mínimo.

Ricardo Amorim disse que para que a diminuição da desigualdade de renda no Brasil seja ainda mais acelerada e para que cada vez mais pessoas passem do grupo 1, o grupo mais pobre, para o grupo 2, o grupo intermediário, é preciso manter um crescimento econômico na faixa dos 5% ao ano, além de fortalecer os programas sociais do Governo.

"Duas coisas são fundamentais para a gente pensar essa ascensão social dos brasileiros como um todo. A manutenção do crescimento econômico é ponto focal. É fundamental nós mantermos o crescimento econômico em ritmo acelerado, como alavanca, como ferramenta necessária, não suficiente, mas necessária para mantermos esse processo. Segunda coisa, e aí, sim, vamos começar a entrar nas necessidades que têm que acompanhar o crescimento econômico. As políticas sociais do Governo têm que atuar, como estão atuando, e talvez com um pouco mais de ênfase, sobre os grupos mais carentes da população", disse Amorim.

Veja o gráfico do Ipea que mostra a queda do coeficiente de Gini no Brasil:

Leia a íntegra da entrevista com Ricardo Amorim:

Paulo Henrique Amorim – A primeira pergunta seria entender uma afirmação muito categórica do estudo que nos leva a acreditar que nós estamos vivendo numa fase inicial do processo de melhoria na distribuição da renda que, se não me engano, mantido o atual passo, serão necessárias ainda mais duas décadas para que nossa desigualdade se alinha à dos demais países com o mesmo nível de desenvolvimento. Isso é uma constatação bastante dura, bastante forte, e eu gostaria que, se fosse possível, você aprofundasse um pouco essa observação.

Ricardo Amorim – Paulo Henrique, na verdade, o que essa afirmação apenas enfatiza é a nossa história social. Se nós olharmos o nosso passado, nós veremos que o Brasil é um país de uma estrutura social bastante triste, bastante difícil de ser defendida sob vários pontos de vista. A nossa pirâmide social é completamente desigual ou assustadoramente desigual. E mesmo no momento em que nós vivemos um crescimento econômico vigoroso, como na década de 30 a 70, nós não distribuímos de maneira nem um pouquinho adequada os frutos do progresso vivido pelo país. O resultado disso é que, embora o progresso recente, o crescimento econômico recente, as ações de Governo, por exemplo, que também têm influenciado na base da pirâmide, tenham levado resultados interessantes para a melhoria da distribuição de renda, para a melhoria da condição de pobreza no país, a base é muito, muito, muito grande e parte de um nível de renda muito baixo. Resultado disso: mesmo mantendo um ritmo elevado de melhoria, mesmo mantendo um ritmo de crescimento econômico forte, como a gente está vivendo, ainda vai levar esse tempo todo para nós conseguirmos ter um nível de desenvolvimento mais ou menos razoável, de melhoria da desigualdade, de melhoria da questão da pobreza no Brasil. Na verdade, a base da pirâmide é muito, muito, muito ruim.

Paulo Henrique Amorim – Agora, eu gostaria que você nos ajudasse também a entender quem subiu do grupo 1, ou seja, do grupo mais pobre, para o grupo 2 da pirâmide de renda, ou seja, o grupo intermediário, era na maioria não-branco, tem escolaridade até a 4ª série, o chefe da família trabalha com a carteira assinada ou inativo, é urbano e mora ou no Sudeste ou no Nordeste. O que faz com que um negro que tenha uma baixa escolaridade more, por exemplo, no Nordeste, possa subir de um para dois?

Ricardo Amorim – Bom, basicamente, o que a gente tem enfatizado bastante nos últimos dias é que duas coisas são fundamentais, e já não é novidade, mas duas coisas são fundamentais para a gente pensar essa ascensão social dos brasileiros como um todo. A manutenção do crescimento econômico é ponto focal. É fundamental nós mantermos o crescimento econômico em ritmo acelerado, como alavanca, como ferramenta necessária, não suficiente, mas necessária para mantermos esse processo. Segunda coisa, e aí, sim, vamos começar a entrar nas necessidades que têm que acompanhar o crescimento econômico. As políticas sociais do Governo têm que atuar, como estão atuando, e talvez com um pouco mais de ênfase, sobre os grupos mais carentes da população. O que eu quero dizer com isso? Nós temos que manter o crescimento econômico e além do crescimento econômico distribuir a renda. E não estou falando de distribuir renda apenas na forma dos programas sociais, que são fundamentais, devem continuar talvez até com mais ênfase, mas eu estou falando com outras políticas de distribuição secundária de renda, como escola, saúde, segurança, cultura, inclusive democratização de acesso a vários tipos de bens públicos, enfim, todos os tipos de coisas que podem ajudar pessoas a saírem do patamar de pobreza que elas têm hoje.

Paulo Henrique Amorim – Por que é tão importante a participação do inativo nessa ascensão do grupo 1 para o grupo 2, grupo intermediário, da faixa de renda?

Ricardo Amorim – Basicamente, o que a gente constatou, a gente precisa aprofundar mais a pesquisa, mas o que a gente constatou nessa análise é que como essa é a renda per capta familiar, o que nós estamos falando é que quando o chefe de família é inativo ele pode ascender socialmente, sim, mas não pela sua renda, mas pela renda dos demais familiares. Então, nesse caso, a gente percebe que às vezes o chefe de família é inativo, já é uma pessoa bem mais velha ou está desempregado, ou coisa parecida, e os outros entes familiares têm conseguido, dadas as oportunidades econômicas surgidas, melhores condições de emprego e renda. E aí ele acaba conseguindo, na verdade a família inteira, sendo levada para um patamar de renda superior. Na verdade, o fato de o chefe de família ser inativo ou não aqui, apenas aparece estatisticamente, mas o importante é que a renda familiar cresceu, dado as oportunidades surgidas.

Paulo Henrique Amorim – O estudo mostra também que a redução do coeficiente de Gini, esse coeficiente que mede a distribuição da renda, ela se aproxima, mas muito lentamente, da média. O que seria necessário, vendo nessa perspectiva que o estudo oferece de 20 anos, o que seria mais importante? Como calibrar crescimento econômico com distribuição de renda para que essa prosperidade, digamos assim, essa ascensão dos grupos mais pobres em direção ao ponto mais alto da pirâmide possa acontecer? Vocês já imaginaram, por exemplo, algum nível mínimo de crescimento do PIB, ou não?

Ricardo Amorim – Na verdade, Paulo Henrique, nós estamos iniciando uma série de estudos da Pnad que deve fornecer inclusive melhores subsídios para isso. Mas, de qualquer forma, alguma coisa a gente já estimou. O crescimento econômico brasileiro mantido no ritmo atual, embora seja bastante interessante, bastante bom, para o que a gente já tinha vivido 25 anos antes, ajudará bastante o crescimento econômico. Eu diria que o patamar mínimo de crescimento para o Brasil conseguir avançar rápida nos próximos anos é nessa faixa de 5% ao ano. Se for mais, melhor. Mas essa faixa já é de grande ajuda para a nossa situação.

Paulo Henrique Amorim – Mas já houve no passado, como o próprio estudo demonstra, nos anos 70, no início do Plano Real, um crescimento econômico com prosperidade relativa, mas isso não foi duradouro.

Ricardo Amorim – Não, não foi, não foi. A prosperidade do Plano Real, basicamente se deve a um controle inflacionário seguido de crescimento da demanda, o que sempre acontece. Justamente, você contém o crescimento inflacionário de forma abrupta, há um boom de demanda e esse boom de demanda pressiona todo tipo de consumo de bens e aí vem um crescimento acelerado da indústria, mas junto vem especulação, vem capacidade da indústria responder, enfim. E o crescimento não dura. Então, aquele foi um surto de crescimento que não foi bem aproveitado, não foi como a gente já teve no passado. Para nós mantermos esse crescimento econômico, eu acho que temos que retomar uma coisa que já vivemos, e que todos os países desenvolvidos fizeram e todos os países que estão crescendo agora fazem: planejamento econômico. Retomar planejamento econômico, retomar a idéia de que o Estado é um ente político e pode, sim, ajudar direcionamento de para onde a sociedade quer ir, retomar a capacidade do Estado de gerar não só regulação, mas também por vezes intervir no domínio econômico. Por exemplo, a Petrobras agora, que é uma estatal, se fosse empresa privada não faria o que faz hoje. Outras atuações que são absolutamente fundamentais para o Estado, inclusive do ponto de vista da produção tecnológica. Enfim, todas essas partes do crescimento econômico têm que ser planejadas, integradas e projetadas para o futuro. Não existe país no mundo, qualquer um, que seja considerado desenvolvido, que não tenha tido, pelo menos no seu início, um Estado forte, atuante e planejador. Não existe. Então, o Estado precisa estar aí como um ente público, como um ente representante da sociedade, para captar a direção da sociedade para onde ela quer ir. Isso é fundamental, planejamento precisa voltar a acontecer no Brasil.

Paulo Henrique Amorim – Uma última consideração que eu lhe pediria para aprofundar, a certa altura o estudo diz que a taxa anual de crescimento dos 10% mais pobres, no período entre 2001 e 2007 é muito próxima daquela observada para a China. E maior do que a de 99% dos países. Ou seja, os pobres brasileiros têm um crescimento igual ao da China?

Ricardo Amorim – Pois é, isso é uma coisa bastante interessante que a gente reparou. Na verdade, foi o professor Paes de Barros que fez essa conta. E ela basicamente diz o seguinte: se nós olharmos o crescimento dessa faixa de renda no Brasil, nós vamos reparar que ela cresce muito mais rápido do que o restante da população em termos de renda. A renda deles cresce muito mais rápido. É o que todas as pesquisas estão constatando: é que a renda na base da pirâmide está tendo uma aceleração, está tendo um crescimento muito mais significativo do que no restante da pirâmide social. Pelo menos no mundo do trabalho. Ou seja, o rendimento das pessoas que advém do trabalho. Isso realmente está ficando muito claro, muito evidente. O que é muito interessante. Se nós mantivermos também esse crescimento, a desigualdade no Brasil tende a cair. E basicamente a causa desse movimento é o crescimento econômico, são as políticas de previdência e transferência de renda e o aumento real do salário mínimo, que está dando um impulso muito importante nas pequenas cidades brasileiras.

Conversa Afiada/Paulo Henrique Amorim