O Dia Do Bancário

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*Nagaho

Você que é um simpático cliente, vá até à sua
agência bancária, dirija-se a um caixa e deposite
um sorriso. Você, certamente, sacará outro.
Hoje é o-dia-do bancário que trabalha para o
o-di-a-do banqueiro…
Os sindicatos dos bancários, em todo o Brasil,
promovem shows para seus associados com Eduardo
Ducheque, Jane Dudoc, Martinho da Fila e Hedge
Mota.

Enquanto isso, bancos como o Bradesco, Unibanco,
Agáéssebêce, Santander et cetera Itaú, seguem na
sua rotina de ganhar até R$24 milhões/dia ou
R$1 milhão por hora, ou R$17 mil por minuto.
Deviam distribuir este lucro ao bancário neste
seu dia. R$250 na conta já daria pr@ bancári@
festejar. Não é uma boa idéia para a pauta de
reivindicações?

Banqueiro é tão esperto que transformou o
cliente em bancário: ele mesmo paga suas contas,
saca o dinheiro, pega cheques. A minoria que vai
ao caixa-gente, sofre na fila. Sobra para o bravo
caixa que tem que atender os clientes “brabos”.
Quando falta dinheiro no caixa, quem paga?
O caixa! Quando sobra, fica numa conta do banco.
O que é um assalto de banco perto de fundar um
banco? perguntava BB, o Berthold Brecht.

Por isso, volta e meia um caixa vai ao bar e vira
“caixaceiro”. Bebe para esquecer, bebe para o
esquecer, bebe para uísque ser. Em compensação,
tem bancário viciado em banco, é o bancólatra.
Adora a agência, chega cedo, almoça correndo,
fica além do horário. É o bancário-do-mês,
do-ano, da-década, até levar um chute por
ser velho e caro para o Banco.

Vida de bancário não é mole: é pressão do cliente,
do gerente, da superintendência, e até da família.
Sexto lugar no ranking das profissões mais
estressantes, hoje, ele virou até vendedor.
A agência, às vezes, parece a 25 de março.
– Não quer fazer um seguro de vida? pergunta
o caixa um pouco inseguro. Na mesa, a atendente,
com tendinite, pergunta se o cliente não quer
se descapitalizar fazendo um título de capitalização,
enquanto o gerente tenta empurrar uma previdência
privada a um quarentão preocupado com seu futuro.

Sem falar no Call Center que liga à noite
e até em fim-de-semana pra sua casa para “estar
oferecendo” o melhor cartão de crédito do mercado,
que “vai estar chegando” em poucos dias e você
“vai estar recebendo” essa overdose de gerúndios.
Na verdade, eles querem é mais débito em sua pobre
conta corrente pra você “estar ficando” ainda mais
inadimplente.

Nos anos 70, quando não tinha um sindicato forte,
o bancário era chamado de “mendigo de gravata”
Porque ganhava mal mas era obrigado a se vestir
bem. Hoje sua situação melhorou mas, a custa de
muito trabalho e estudo, e ainda está longe do ideal.
Para arrancar 0,1% a mais de reajuste do banqueiro
é uma façanha. Um presidente do sindicato certa vez
afirmou que é mais fácil negociar com a Taleban
do que com a Fenaban (Federação nacional dos
bancos, sanguessugas da nação, refrão que se ouve
em tempos de “estamos em greve”).

Teve um tempo que o banco era como o banco do carro:
confortável, estável. Com a tecnologia e seus caixas
eletrônicos ceifando milhares de empregos, o banco
deixou de ser ergonômico. São muitos os bancários
vítimas de LER, bursite, hérnia de disco. Se pegam
licença-saúde são discriminados, vítimas de assédio
imoral e entram pra lista negra do bilhete azul.

Os bancos priorizaram a classe A e o resto que se lasque.
Cliente da elite do banco feito pra você pagar tarifas, é
Personnalité; e você um pédechinelité. Cliente fashion
do banco que era conhecido como o banco brasileiro dos
dez contos, é “prime”; pra mer…requeiros, o nome é
aquele mesmo. Cliente chique do Banco da Deise,
é Estilo; quem não for estiloso que ganhe na mega-sena
para ter um personal gerente.

O mundo dos bancários tem até ditados próprios.
Por exemplo, um dia é do caixa, outro do sacador. O uso
do carimbo faz a mão torta. Quando o bancário acorda,
o banqueiro perde o sono. Feliz como um bancário que
ganhou um carimbo novo. Um bancário faz tchan!,
dois bancários fazem tchun! E 400 mil fazem tchan! tchan!
tchaan! Dá pra segurar o tchan, banqueiros?

Por tudo isso, Salve o Dia do Bancário! E salvem-se quem
puder dos banqueiros!

*Nagaho é funcionário aposentado do Banco do Brasil