Para Quick, a prevenção é um instrumento muito poderoso e que não é bem entendido por líderes e administradores
Apesar do sobrenome em inglês significar rapidez, o professor James Quick não costuma ter muita pressa no seu dia-a-dia. Especialista renomado no estudo do estresse, ele raramente usa o celular. "Quando alguém precisa falar comigo, marca uma hora por e-mail e liga", diz. "Não lido com pessoas em crise, então elas podem esperar", justifica.
Professor de comportamento organizacional da Univesidade do Texas, nos Estados Unidos, onde também dirige a Goolsby Leardership Academy, Quick é autor de 17 livros e mais de 100 artigos sobre estresse. Junto com o irmão, co-autor em algumas de suas obras, foi um dos criadores do termo "tecnoestresse" e é reconhecido com um dos pioneiros na implantação de sistemas de prevenção da doença.
No próximo dia 24, ele desembarca pela quinta vez no Brasil para participar do IX Fórum Internacional de Qualidade de Vida no Trabalho, que acontecerá entre os dias 26 e 28, em Porto Alegre. Quick comparecerá a convite do International Stress Management Association do Brasil (Isma-br).
Antes de mais uma incursão no país, Quick concedeu uma entrevista ao Valor , onde falou sobre o avanço do estresse nos países onde a economia vai bem mas o emprego é escasso, como no Brasil e na China. Disse ainda como gerencia o próprio tempo para ter uma vida mais tranqüila. A seguir alguns trechos:
Valor: Existem diferenças no nível de estresse das pessoas que trabalham nos países mais desenvolvidos e nos emergentes?
James Quick: Eu acho que existem algumas diferenças sim. Nos EUA, ele é um pouco maior do que o observado nas economias mais desenvolvidas da Europa. Na maioria dos países europeus hoje existe mais segurança em relação ao trabalho. A exceção é o Reino Unido. Lá a economia está mais próxima da americana, portanto, existem mais incertezas em relação ao emprego, o que faz toda diferença. Minha percepção da China, onde já estive inúmeras vezes, e do Brasil, é que existe muita competitividade por emprego, já que as economias cresceram de forma madura e estabilizada. Isso afeta o nível de estresse.
Valor: É possível estimar quanto as empresas perdem por conta do nível de estresse dos empregados?
Quick: Tenho estudos que falam sobre o custo da saúde ocupacional em ambientes de trabalho, que é um dos grandes problemas globais. O International Labour Office (ILO), em Genebra, na Suíça, estima que 2,2 milhões de pessoas por ano são mortas em acidentes ou por doenças no trabalho. O número é menor na Europa e em alguns países desenvolvidos. Também sabemos que o risco é maior nos países em desenvolvimento. Este número, inclusive, deve estar subestimado pela dificuldade que temos em coletar esse tipo de dado.
Valor: Qual a relação entre o estresse e a violência?
Quick: Parte do problema da violência é o que vimos recentemente no incidente em Virgínia Tech, quando um homem se matou e tirou mais 32 vidas. É um caso extremo de tirania, um alto nível de violência. Assédio é a repetição de ações perigosas para a saúde praticadas por um chefe frio e ruim. Ele custa U$ 180 milhões por ano nos EUA, em tempo perdido e queda na produtividade.
Valor: As empresas hoje estão lidando melhor com o estresse?
Quick: Há alguns anos, a indústria farmacêutica Astrazeneca está fazendo um bom trabalho, cuidando dos que eram psicologicamente ou fisicamente feridos no ambiente de trabalho. Existe um bom trabalho também na Força Aérea dos EUA, onde foram reduzidas significativamente as taxas de suicídio. Eles conseguiram isso atuando na prevenção da violência, administrando os conflitos de uma maneira mais saudável.
Valor: A prevenção então é a melhor arma contra o estresse?
Quick: A prevenção é um instrumento muito poderoso e não é bem entendido por líderes e administradores. Isso porque ela vem da saúde pública e não das teorias de administração.
Valor: O senhor acredita que a nova geração que está chegando ao topo das organizações lida melhor com o estresse do que a anterior?
Quick: Alguns sim, outros não. Em toda geração temos líderes bons e ruins. Eu acho que temos mais líderes bons seguindo exemplos de outros bons líderes e deixando a nova geração aprender com eles. Mas acho que a diferença é que esta geração tem mais informação disponível sobre o que são as boas práticas do que as gerações passadas. Proporcionalmente, estamos vendo mais líderes saudáveis. O diretor executivo da National Defense University de Washington estava me dizendo que na área de defesa os executivos e militares, nos últimos 20 anos, passaram por algumas mudanças e se tornaram líderes mais positivos. Eles não bebem mais tanto, tomam contam de seu físico. Seus empregados estão melhores, foram beneficiados com isso.
Valor: A tecnologia hoje pode tomar conta da vida dos executivos. Existe até curso para curar a dependência do blackberry. Qual sua opinião sobre essa relação doentia com as aparatos tecnológicos?
Quick: Eu não conheço esse curso especificamente. Eu e meu irmão, que é médico e CEO de uma companhia de saúde internacional, em Boston, escrevemos anos atrás um livro sobre o "tecnoestresse". O bom da tecnologia é que podemos nos comunicar a qualquer hora, qualquer momento. Então são boas e más notícias. Quando eu era chefe do nosso programa de PhD, por conta do fuso horário, tinha que acordar às duas da manhã para entrar em contato com o responsável pela escola de negócios da Universidade do Kuwait. Eu ligava e voltava para a cama.
Valor: O senhor ainda faz coisas desse tipo?
Quick: Acho que sou capaz de lidar melhor com essas situações hoje. Tenho momentos em que não estou engajado com minha tecnologia. Uso o e-mail. Mas raramente o celular. Por um motivo simples, eu não preciso estar disponível. Não lido com pessoas em crise. Elas podem esperar ou planejar um horário para conversar comigo pelo telefone. Não preciso ter tanta pressa. Aprendi muito com meu pai, que era executivo de marketing. Quando ele se aposentou demos um microondas para ele para fazer o jantar mais rápido. Ele nos disse que não tinha tanta pressa: "ainda posso cozinhar no forno".
Valor: O senhor acredita então que é uma questão de escolha?
Quick: O que importa sobre a tecnologia é que você não deve deixar ela tomar conta de você. Você deve tomar conta dela. É simples.
Stela Campos – Valor Econômico


























































































































































