Seminário aprofunda debate sobre saúde e segurança bancária

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Teve continuidade nesta quarta-feira 23, na sede da Confederação dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), o seminário organizado pela Federação dos Trabalhadores em Empresas de Crédito do Centro-Norte (Fetec/CN), em parceria com o Sindicato, para discutir saúde e segurança na categoria bancária.

Na primeira mesa de debates, Ana Magnólia, professora do Departamento de Psicologia do Trabalho da UnB, falou sobre as condições do trabalho bancário com base nos efeitos da reestruturação produtiva para a categoria. Magnólia analisou a questão levando em conta três eixos: organização do trabalho, relações sócio-profissionais e condições de trabalho. Para ela, há um conflito entre o trabalho prescrito e o trabalho real dos bancários: "O bancário não encontra sentido no seu trabalho. Tal situação é agravada por normas de trabalho muito rígidas e padronizadas, por uma hierarquização muito centralizada, onde prevalece um clima de rivalidade com pressão constante e cobrança por metas inatingíveis". 

Os efeitos para os bancários são, destacou a professora, a desestruturação do trabalho coletivo, o individualismo, a solidão e a falta de reconhecimento. Por fim, Magnólia analisou as estratégias de mediação adotadas pelos bancários, que muitas vezes evolui para comportamentos patológicos com enormes prejuízos para a saúde do trabalhador. E sugere: “Para superar o problema é necessário mobilização subjetiva e coletiva onde o bancário possa expressar seu problema, possa ser reconhecido e ao mesmo tempo busque cooperação com outros que têm os mesmos problemas e procure soluções coletivas”.

Na segunda mesa, houve apresentações relacionadas à psicologia aplicada à saúde e segurança feitas pelo professor Othon Vieira Neto, do Núcleo de Psicologia Aplicada de São Paulo e pela professora Leda Gonsalves Freitas, da Universidade Católica de Brasília. Othon apresentou os sintomas pós-traumáticos relacionados a assaltos em bancos e mostrou os resultados de várias pesquisas e levantamentos feitos com bancários, analisando as conseqüências para os locais de trabalho e a reação individual das vítimas, discorrendo sobre iniciativas e medidas que podem minorar o risco e o sofrimento provocados por este tipo de situação. “Os bancos podem e devem adotar medidas preventivas de segurança. Em primeiro lugar, pelo fator humano e em segundo lugar pela própria queda de lucratividade e aumento com custos com saúde decorrentes dos assaltos”, afirmou Othon.

Já a professora Leda analisou o sofrimento psíquico dos trabalhadores, ilustrando sua apresentação com uma pesquisa realizada em 2007 com base em dados do INSS. “Os bancários são a categoria que mais sofre de adoecimento mental. Com base nos benefícios concedidos pelo INSS em 2002, 81% dos benefícios de saúde mental foram para bancários. Em relação às LER-DORT, 55,3% dos benefícios foram para bancários”, ilustrou Leda.

À tarde, a primeira mesa discutiu o Nexo Técnico Epidemiológico (NTEP) e o Fator Acidentário de Prevenção (FAP), com o técnico do Ministério da Previdência Social (MPS) Paulo Cesar de Almeida. O NTEP é um referencial fundamental para auxiliar o enquadramento das doenças do trabalho, uma vez que foi baseado em dados das ocorrências de doenças dos trabalhadores durante vários anos. “O NTEP, embora não seja o único instrumento dos peritos do INSS, é uma ferramenta que permite uma maior objetividade no estabelecimento do nexo causal e conseqüente concessão de licenças e benefícios”, afirmou Paulo Cesar.

Outro avanço importante, avalia, foi a implementação do FAP, que permitiu estabelecer uma tributação às empresas não só de acordo com os riscos de cada setor produtivo, mas sobretudo de acordo com as medidas objetivas que cada empresa adota em termos de prevenção. “Quem investe mais em saúde e prevenção, paga menos tributos, gerando interesse para que as empresas realmente adotem medidas preventivas e de promoção à saúde e segurança”, avaliou Paulo Cesar.

Segurança bancária

A última mesa do dia teve como pauta segurança bancária. Compuseram-na vários dirigentes sindicais envolvidos com o tema da segurança: Gutember Oliveira, diretor da Fetec/SP, Ademir Wiederkehr, diretor do SEEB-Porto Alegre e Leonardo de Sousa, do SEEB-Belo Horizonte, todos membros da Comissão de Segurança Bancária da Contraf-CUT. Também compôs a mesa o dirigente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Vigilância (CNTV), José Boaventura.

Eles destacaram a importância de se garantir uma legislação adequada no que se refere à segurança bancária. “Temos que lutar para que o Projeto de Lei do Senado nº 168, que trata da segurança privada, seja alterado e torne-se realmente efetivo, não permitindo, em hipótese alguma, que os bancários transportem valores em espécie para os bancos”, afirmou Gutemberg Oliveira.

Ademir Wiederkehr destacou as várias conquistas do sindicato de Porto Alegre que, através de leis municipais, tem conseguido impor aos bancos medidas tais como: a obrigatoriedade de vigilantes nas salas de auto-atendimento e a instalação de portas giratórias no acesso destas salas; a instalação de câmaras de segurança com monitoramento remoto; e a instalação de vidros a prova de balas no primeiro piso das dependências bancárias (que entrará em vigor em 2009).

José Boaventura, por sua vez, falou da importância de bancários e vigilantes unirem forças para exigir dos bancos e das empresas de vigilância o cumprimento da legislação e dos planos de segurança que cada agência bancária possui. Falou também que a união e solidariedade dessas categorias, que já começou a ser exercida, é fundamental para não só garantir mais segurança para os trabalhadores, clientes e usuários, mas também para outras conquistas sindicais, em função da possibilidade de se realizar campanhas e greves conjuntas muito mais efetivas.

O seminário foi encerrado no final da manhã desta quinta-feira, após uma série de discussões sobre a legislação aplicada à segurança e à saúde, seguida de plenária final. As propostas definidas serão levadas para a Conferência Nacional em São Paulo, que começa neste fim de semana.